sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra...

Uma Voz na Pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.

De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha
quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei.
Amo.
Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores
e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente,
algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida,
estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez
e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega
nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera
ser aberto por uma palavra.

(António Ramos Rosa)

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