segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Creep Radiohead

I don't care if it hurts
I wanna have control
I wanna a perfect body
I wanna a perfect soul
I want you to notice
When I'm not around
You're so very special
I wish I was special
But I'm a creep
I'm a weirdo
What the hell am I doing here?
I don't belong here.

domingo, 20 de dezembro de 2009

High and Dry
Radiohead

Two jumps in a week
I bet you think that's pretty clever don't you boy?
Flying on your motorcycle,
Watching all the ground beneath you drop
You'd kill yourself for recognition,
Kill yourself to never ever stop
You broke another mirror,
You're turning into something you are not

Don't leave me high, don't leave me dry
Don't leave me high, don't leave me dry

Drying up in conversation,
You will be the one who cannot talk
All your insides fall to pieces,
You just sit there wishing you could still make love
They're the ones who'll hate you
When you think you've got the world all sussed out
They're the ones who'll spit at you,
You will be the one screaming out

Don't leave me high, don't leave me dry
Don't leave me high, don't leave me dry

It's the best thing that you ever had,
The best thing that you ever, ever had
It's the best thing that you ever had,
The best thing you ever had has gone away

A casinha do Jardim botânico

Hoje fui passear no jardim botânico (o bairro mesmo não o jardim), as vezes faço isso e ficamos passeando de carro por aquelas ruazinhas lindas... despreocupadamente.

No Horto as ruas são mais urbanas e as casinhas são quase todas germinadas, com aqueles janelões antigos... um charme só, lembram um pouco o bairro Notting Hill de Londres, mas ainda falta muita reforma para ser comparável, pois muitos moradores são herdeiros dos primeiros proprietários e não tem condição de manter as casas em forma.

Em uma das ruazinhas, esta já no meio do bairro e mais arborizada, tem uma casinha linda, muito antiga, pequenina, aproximadamente uns 200 metros de terreno, mas todos os seus detalhes são extremamente ricos e cheios de personalidade, só ela ali, pequenina no meio de um monte de casarões elegantes.

Ela estava até a pouco tempo abandonada, mas ainda assim eu conseguia ver beleza nela, acabadinha mesmo, vidros quebrados, janelas enferrujadas, madeiras corroidas, mas nada disso, nem o tempo, nem o descuido conseguiu apagar sua personalidade.

Desde que a vi pela primeira vez foi amor a primeira vista, senti um desejo profundo de tê-la, reformá-la e trazê-la de volta a vida.

Essa, na verdade, é uma fantasia antiga. Sempre adorei a ideia de comprar uma dessas casinhas antiguíssimas que um dia já foram lindas, cheias de história, mas que por alguma razão foram esquecidas, perderam seu charme, mas mantiveram sua personalidade, sua alma, sua riqueza de detalhes... por essa razão sempre tive uma pontinha de inveja dos engenheiros civis e arquitetos, pois eu queria eu mesma, poder recriar uma casinha dessas, como se esse restaurar fosse me permitir entrar na alma dela, me integrar a sua personalidade construída em um outro tempo e fundir ali a minha história também tão particular.

Me disseram que Freud explica isso, que isso provavelmente explica a minha forma de sentir a vida. Provavelmente.

Pode ser que eu me sinta essa casinha, fora de contexto, perdida nesse mundo atual que não compreendo, com uma alma de outro tempo do qual já nem me lembro, cheia de personalidade, cheia de potencialidades, porém carente de uma reforma que me desperte.

Dessa vez passar por lá foi diferente, a casinha foi comprada por alguém, tinha uma placa de um arquiteto na frente, alguém também se despertou para a mesma beleza que eu vi além daquelas ruinas, alguém encontrou razão para investir ali seus recursos, porque acreditou na beleza escondida pelo abandono.

Desejei que tenha sido realmente alguém também sensível, que não vá transformá-la em algo comercial, que não vá fazê-la perder sua alma, que não vá sufocá-la para transformá-la em algo que ela não é e nunca foi, desejei que seja alguém que queira um dia fazer parte dela e queira incorporar na sua antiga história uma história nova, cheia de personalidade, cheia de vida e sabedoria adquirida nos tempos de abandono.

Se for assim, ainda passarei por lá muitas vezes, e todas as vezes meu coração se encherá de uma esperança inexplicável e eu vou ficar feliz e vou pensar: que sorte teve essa casinha...

sábado, 19 de dezembro de 2009

Perfume de mulher

" nao ha erros no tango, nao é como a vida, se voce se embaralhar, continue a dançar...."

"some people live a lifetime in a minute."

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Desejo (Victor Hugo)

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.


Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.



Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.



Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.



Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.



Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.



Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.



Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.



Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.



Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.


Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar ".

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

ELLA

Viene despacio
entra
tropieza con mi tos
con mi costumbre de dejar la nuca
en cualquier parte
viene despacio
ordena mis silencios
desata las palabras necesarias
recibe la correspondencia de mis ojos
viene despacio
a tender sus manteles de ternura
viene despacio
apenas hecha humo para no despertarme
se abre paso entre vasos arrojados al día
retratos de mujeres
noches de bronca y noches de ginebra
viene despacio
con su enchape celeste subiéndose a mis mástiles
viene despacio
entra
se arrodilla al borde de mi alma
y junta los fragmentos de mi risa
después... se vuela azul como la tarde.

Llénate de mí - Pablo Neruda

Llénate de mí.
Ansíame, agótame, viérteme, sacrifícame.
Pídeme. Recógeme, contiéneme, ocúltame.
Quiero ser de alguien, quiero ser tuyo, es tu hora,
Soy el que pasó saltando sobre las cosas,
el fugante, el doliente.

Pero siento tu hora,
la hora de que mi vida gotee sobre tu alma,
la hora de las ternuras que no derramé nunca,
la hora de los silencios que no tienen palabras,
tu hora, alba de sangre que me nutrió de angustias,
tu hora, medianoche que me fue solitaria.

Libértame de mí. Quiero salir de mi alma.
Yo soy esto que gime, esto que arde, esto que sufre.
Yo soy esto que ataca, esto que aúlla, esto que canta.
No, no quiero ser esto.
Ayúdame a romper estas puertas inmensas.
Con tus hombros de seda desentierra estas anclas.
Así crucificaron mi dolor una tarde.

Quiero no tener límites y alzarme hacia aquel astro.
Mi corazón no debe callar hoy o mañana.
Debe participar de lo que toca,
debe ser de metales, de raíces, de alas.
No puedo ser la piedra que se alza y que no vuelve,
no puedo ser la sombra que se deshace y pasa.

No, no puede ser, no puede ser, no puede ser.
Entonces gritaría, lloraría, gemiría.

No puede ser, no puede ser.
Quién iba a romper esta vibración de mis alas?
Quién iba a exterminarme? Qué designio, qué? palabra?
No puede ser, no puede ser, no puede ser.
Libértame de mí. Quiero salir de mi alma.

Porque tú eres mi ruta. Te forjé en lucha viva.
De mi pelea oscura contra mí mismo, fuiste.
Tienes de mí ese sello de avidéz no saciada.
Desde que yo los miro tus ojos son más tristes.
Vamos juntos. Rompamos este camino juntos.
Ser? la ruta tuya. Pasa. Déjame irme.
Ansíame, agótame, viérteme, sacrificarme.
Haz tambalear los cercos de mis últimos límites.

Y que yo pueda, al fin, correr en fuga loca,
inundando las tierras como un río terrible,
desatando estos nudos, ah Dios mío, estos nudos,
destrozando,
quemando,
arrasando
como una lava loca lo que existe,
correr fuera de mi mismo, perdidamente,
libre de mí, Curiosamente libre.
¡Irme, Dios mío, irme!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

VUELVO

Vuelvo /quiero creer que estoy volviendo
con mi peor y mi mejor historia
conozco este camino de memoria
pero igual me sorprendo

hay tanto siempre que no llega nunca
tanta osadía tanta paz dispersa
tanta luz que era sombra y viceversa
y tanta vida trunca

vuelvo y pido perdón por la tardanza
se debe a que hice muchos borradores
me quedan dos o tres viejos rencores
y sólo una confianza

reparto mi experiencia a domicilio
y cada abrazo es una recompensa
pero me queda / y no siento vergüenza /
nostalgia del exilio

en qué momento consiguió la gente
abrir de nuevo lo que no se olvida
la madriguera linda que es la vida
culpable o inocente

vuelvo y se distribuyen mi jornada
las manos que recobro y las que dejo
vuelvo a tener un rostro en el espejo
y encuentro mi mirada


propios y ajenos vienen en mi ayuda
preguntan las preguntas que uno sueña
cruzo silbando por el santo y seña
y el puente de la duda

me fui menos mortal de lo que vengo
ustedes estuvieron / yo no estuve
por eso en este cielo hay una nube
y es todo lo que tengo

tira y afloja entre lo que se añora
y el fuego propio y la ceniza ajena
y el entusiasmo pobre y la condena
que no nos sirve ahora

vuelvo de buen talante y buena gana
se fueron las arrugas de mi ceño
por fin puedo creer en lo que sueño
estoy en mi ventana

nosotros mantuvimos nuestras voces
ustedes van curando sus heridas
empiezo a comprender las bienvenidas
mejor que los adioses

vuelvo con la esperanza abrumadora
y los fantasmas que llevé conmigo
y el arrabal de todos y el amigo
que estaba y no está ahora

todos estamos rotos pero enteros
diezmados por perdones y resabios
un poco más gastados y más sabios
más viejos y sinceros

vuelvo sin duelo y ha llovido tanto
en mi ausencia en mis calles en mi mundo
que me pierdo en los nombres y confundo
la lluvia con el llanto


vuelvo / quiero creer que estoy volviendo
con mi peor y mi mejor historia
conozco este camino de memoria
pero igual me sorprendo.

Mario Benedetti

sábado, 5 de dezembro de 2009

"Cada pedaço de mim
sabe o inferno que é
ser sol em noites de chuva,
ser cor nos cinzas dos edifícios,
ser luz na escuridão das manhãs.
Cada todo de ti
sabe a delícia que é
ser flor nas asas do vento,
ser cristal nos olhos das fadas,
ser azul no fundo do mar.
Cada suspiro de nós
sabe a angústia que é
ser só um na multidão dos dias,
ser muito na pobreza da esquina,
ser ninguém na roda da vida.
Enquanto isso os relógios se vão,
e vêem aqueles que sabem o que é
apenas ser
na ausência do nada".

O amor é quando a gente mora um no outro

"Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei...
O amor é quando a gente mora um no outro."
Clarice

Viver tem que ser perturbador

"Sempre desprezei as coisas mornas,
as coisas que não provocam ódio nem paixão,
as coisas definidas como mais ou menos,
um filme mais ou menos ,
um livro mais ou menos.
Tudo perda de tempo.
Viver tem que ser perturbador,
é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados,
e com eles sua raiva,
seu orgulho,
seu asco,
sua adoraçao ou seu desprezo.
O que não faz você mover um músculo,
o que não faz você estremecer,
suar,
desatinar,
não merece fazer parte da sua biografia.

Exagerada

'Exagerada toda a vida: minhas paixões são ardentes; minhas dores de cotovelo, de querer morrer; louca do tipo desvairada; briguenta de tô de mal pra sempre; durmo treze horas seguidas; meus amigos são semi-irmãos; meus amores são sempre eternos e meus dramas, mexicanos!'

Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando

"Eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio de uma praça. Então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você sem dizer nada, só olhando e pensando - Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando".
Caio Fernando Abreu
"NENHUMA PESSOA É LUGAR DE REPOUSO"

Nei Duclós

Vive o instante que passa

"Vive o instante que passa.
Vive-o intensamente até à última gota de sangue.
É um instante banal, nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos.
E no entanto ele é o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro.
Porque nunca mais ele será o mesmo nem tu que o estás vivendo.
Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele não seja pois em vão no dar-se-te todo a ti.
Olha o sol difícil entre as nuvens, respira à profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica.
E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí.
E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és.
Assim o dom estúpido e miraculoso da vida não será a estupidez maior de o não teres cumprido integralmente, de o teres desperdiçado numa vida que terá fim."

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente IV'

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra...

Uma Voz na Pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.

De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha
quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei.
Amo.
Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores
e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente,
algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida,
estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez
e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega
nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera
ser aberto por uma palavra.

(António Ramos Rosa)

Persuasão

"Nunca houve dois corações mais abertos,
nem gostos mais semelhantes,
ou sentimentos mais em sintonia".

A um Ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral,
a comum aquiescência de viver
e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enloqueceu,
enloquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação,
o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso,
voz modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar porque o fizeste,
porque te foste.
Carlos Drummond de Andrade

Presente

Queria neste poema a cor dos teus olhos
e queria em cada verso o som da tua voz:
depois, queria que o poema tivesse a forma
do teu corpo, e que ao contar cada sílaba
os meus dedos encontrassem os teus,
fazendo a soma que acaba no amor.

Queria juntar as palavras como os corpos
se juntam, e obedecer à única sintaxe
que dá um sentido à vida; depois,
repetiria todas as palavras que juntei
até perderem o sentido, nesse confuso
murmúrio em que termina o amor.

E queria que a cor dos teus olhos e o som
da tua voz saíssem dos meus versos,
dando-me a forma do teu corpo; depois,
dir-te-ia que já não é preciso contar
as sílabas, nem repetir as palavras do poema,
para saber o significado do amor.

Então dar-te-ia o poema de onde saíste,
como a caixa vazia da memória, e levar-te-ia
pela mão, contando os passos do amor.
NJ

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Pedro lembrando Ines

Em que pensar, agora, senão em ti?

Tu, que me esvaziaste de coisas incertas,
e trouxeste amanhã da minha noite.

É verdade que te podia dizer:
«Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem,
sermos o que sempre fomos,
mudarmos apenas dentro de nós próprios?»

Mas ensinaste-me a sermos dois;
e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide.

Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo,
ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios,
mesmo esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido de irmos contra o tempo,
para ganhar o tempo que o tempo nos rouba.

Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar:
com a surpresa dos teus cabelos,
e o teu rosto de água fresca que eu bebo,
com esta sede que não passa.

Tu: a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti,
como gostas de mim,
até ao fim do mundo que me deste.

Nuno Judice

O amor

Deus — talvez esteja aqui,
neste pedaço de mim e de ti,
ou naquilo que, de ti, em mim ficou.
Está nos teus lábios,
na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os evoco.
Existe: é o que sei quando me lembro de ti.
Uma relação pode durar o que se quiser;
será, no entanto, essa impressão divina que faz a sua permanência?
Ou impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão sutil da vida?
Um deus não precisa do tempo para existir:
nós, sim.
E o tempo corre por entre estas ausências,
mete-se no próprio instante em que estamos juntos,
foge por entre as palavras que trocamos,
eu e tu, para que um e outro as levemos
conosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.
Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta.
Desce dos confins da eternidade,
abandona o mais remoto dos infinitos,
e senta-se aos pés da cama,
como um cão, ouvindo a música da noite.
Um deus só existe enquanto o dia não chega;
por isso adiamos a madrugada,
para que não nos abandone,
como se um deus não pudesse existir para lá do amor,
ou o amor não se pudesse fazer sem um deus.
Nuno Júdice

In: CARTOGRAFIA DAS EMOÇÕES
"Minhas alegrias são intensas.
Minhas tristezas, absolutas.
Me entupo de ausências, me esvazio de excessos.
Eu não caibo no estreito, só vivo nos excessos."
Clarice Lispector

Nuno Júdice

Nunca são as coisas mais simples que aparecem quando as esperamos.
O que é mais simples, como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se encontra no curso previsível da vida.
Porém, se nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos nos empurrou para fora do caminho habitual, então as coisas são outras.
Nada do que se espera transforma o que somos se não for isso: um desvio no olhar; ou a mão que se demora no teu ombro, forçando uma aproximação dos lábios.