Hoje fui passear no jardim botânico (o bairro mesmo não o jardim), as vezes faço isso e ficamos passeando de carro por aquelas ruazinhas lindas... despreocupadamente.
No Horto as ruas são mais urbanas e as casinhas são quase todas germinadas, com aqueles janelões antigos... um charme só, lembram um pouco o bairro Notting Hill de Londres, mas ainda falta muita reforma para ser comparável, pois muitos moradores são herdeiros dos primeiros proprietários e não tem condição de manter as casas em forma.
Em uma das ruazinhas, esta já no meio do bairro e mais arborizada, tem uma casinha linda, muito antiga, pequenina, aproximadamente uns 200 metros de terreno, mas todos os seus detalhes são extremamente ricos e cheios de personalidade, só ela ali, pequenina no meio de um monte de casarões elegantes.
Ela estava até a pouco tempo abandonada, mas ainda assim eu conseguia ver beleza nela, acabadinha mesmo, vidros quebrados, janelas enferrujadas, madeiras corroidas, mas nada disso, nem o tempo, nem o descuido conseguiu apagar sua personalidade.
Desde que a vi pela primeira vez foi amor a primeira vista, senti um desejo profundo de tê-la, reformá-la e trazê-la de volta a vida.
Essa, na verdade, é uma fantasia antiga. Sempre adorei a ideia de comprar uma dessas casinhas antiguíssimas que um dia já foram lindas, cheias de história, mas que por alguma razão foram esquecidas, perderam seu charme, mas mantiveram sua personalidade, sua alma, sua riqueza de detalhes... por essa razão sempre tive uma pontinha de inveja dos engenheiros civis e arquitetos, pois eu queria eu mesma, poder recriar uma casinha dessas, como se esse restaurar fosse me permitir entrar na alma dela, me integrar a sua personalidade construída em um outro tempo e fundir ali a minha história também tão particular.
Me disseram que Freud explica isso, que isso provavelmente explica a minha forma de sentir a vida. Provavelmente.
Pode ser que eu me sinta essa casinha, fora de contexto, perdida nesse mundo atual que não compreendo, com uma alma de outro tempo do qual já nem me lembro, cheia de personalidade, cheia de potencialidades, porém carente de uma reforma que me desperte.
Dessa vez passar por lá foi diferente, a casinha foi comprada por alguém, tinha uma placa de um arquiteto na frente, alguém também se despertou para a mesma beleza que eu vi além daquelas ruinas, alguém encontrou razão para investir ali seus recursos, porque acreditou na beleza escondida pelo abandono.
Desejei que tenha sido realmente alguém também sensível, que não vá transformá-la em algo comercial, que não vá fazê-la perder sua alma, que não vá sufocá-la para transformá-la em algo que ela não é e nunca foi, desejei que seja alguém que queira um dia fazer parte dela e queira incorporar na sua antiga história uma história nova, cheia de personalidade, cheia de vida e sabedoria adquirida nos tempos de abandono.
Se for assim, ainda passarei por lá muitas vezes, e todas as vezes meu coração se encherá de uma esperança inexplicável e eu vou ficar feliz e vou pensar: que sorte teve essa casinha...
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Tava passeando pela net e vi seu texto... Muito bom!!!
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